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quinta-feira, 11 de março de 2010

Maria Padilha e Iracema


A trajetória de Maria Padilha e Iracema

Com sete anos de idade,
minha mãe me abandonou.
Fui criada lá na mata, tão só.
Ai de mim meus companheiro,
tem dó.

Ai de mim meus companheiro,
eu, tão só.
Canto de Maria Padilha

Ela, Iracema, nos conta que veio da Paraíba aos quatorze anos de idade, à procura de uma vida melhor no Rio de Janeiro. Migrante, fugia da severidade do pai, do casamento forçado. Fugia dos olhos invejosos daqueles, que incapazes de amar publicamente, se dispunham a vigiá-la, furtivamente, nos seus encontros amorosos. Tentativa vã, de viverem em Iracema, seus desejos inconfessos, sua coragem e audácia de se expor ao julgamento inquisitório de uma sociedade condenada a viver de aparências. Fugia ela, dos muros erguidos contra a prática de sua religiosidade espírita, herdada de sua avó. Fugia da pobreza, da solidão precoce.
Disposta a encontrar o avesso do que viveu nas terras paraibanas, Iracema se defronta no Rio de Janeiro com uma vida que também não lhe deu descanso nem trégua, mas foi suficientemente receptiva para acolher, através dos braços de Maria Padilha, ela, Iracema. Através de Padilha, uma vida inteira foi se construindo: o grande amor, a gravidez, os filhos, a separação do marido e dos filhos, o trabalho religioso voltado para amenizar a aflição da alma humana.
É sobre a trajetória dessas duas mulheres, uma mundana, terrena, a outra, habitante do outro mundo, o dos espíritos, que trata o presente artigo. Em Iracema, a vontade férrea de autorealização, de uma vida significativa. Em Maria Padilha, a capacidade de curar, de apontar o caminho, de proteger, de encontrar. Entre as duas personagens, a psyque criativa de Carl Gustav Jung e James Hillman, e a “elaboração simbólica” de Carlos Byington, dentre outros.

Lembranças da Paraíba


Iracema conta que sua mediunidade teve a influência de sua avó, uma rezadeira que fazia curas, benzendo as pessoas com um galhinho de pinhão roxo. Ela morava num casarão, convivendo com a dor de ter perdido dois filhos. Um filho morreu de tuberculose e o outro morreu numa sexta-feira santa, por ter desobedecido à norma de que não se faz nada neste dia. Desobedeceu e saiu para cortar um pé de angico. A árvore tornou a brotar e até hoje as pessoas, ao passar por perto, ouvem a árvore gemer e chorar.
Numa vez que dormia com sua avó, Iracema viu dois homens carregando uma enorme cruz de fogo. Sua avó também os via, e dizia a Iracema que eram seus filhos que haviam morrido, que não haviam se purificado, e que, sofrendo, iam visitá-la. Naquele casarão, também se ouvia as vozes e choro das crianças que haviam morrido pagãs e que haviam sido enterradas na porteira do curral, por ser um lugar sagrado.
Naquele tempo, Iracema relata, que andava muito pelo mato e a acompanhava uma menina que era muito sua amiga e que parecia um anjo. Ela se vestia de branco e segurava um raminho de flores. No entanto, essa menina desaparecia ao chegar próximo da porteira. Relata, ainda, sua vocação para ajudar os necessitados, levando alimento para as pessoas que moravam na beira da linha do trem. Lembra, ainda, que cuidou, escondido de seus pais, de uma mulher tuberculosa, até à sua morte.
Iracema se auto-designa, já desde criança, como sendo muito mato, muito pedra, andarilha solitária, montadora de cavalos, misturada à natureza, à gente pobre e doente. Ouvidos atentos aos gemidos dos que sofriam também no outro mundo, olhar que alcançava a dor além da fronteira que separa o desconhecido das coisas que podem ser medidas, tocadas, compreendidas.
Aos sete anos ela se imaginava num outro lugar grande e distante, e dizia para sua mãe que iria embora e que ficaria muito tempo sem vê-la. Mas para ir embora, ainda esperou até os quatorze anos quando começaram os tumultos na família. Em desacordos constantes com o pai, saiu de casa, acusada de não ser moça direita. O próprio pai a colocou na cadeia, e ela acabou se casando com um rapaz para conseguir sua liberdade e viajar para o Rio de Janeiro. Essa também foi a época que sua avó faleceu, aos cem anos. No momento do enterro, Iracema de luto, vestida de preto, desmaiou, pois recebeu o contato do espírito da avó. Decidiu que nunca mais se vestiria de preto para ninguém. O negro das vestes seria o marco da grande dor de perder sua avó, a pessoa que tinha sido referência de amor, de amparo e carinho em sua vida na Paraíba.
Com a morte de sua avó, Iracema vai embora para o Rio de Janeiro, sem a autorização do pai que predizia que mulher que ia embora para o Rio, era para ser prostituta. Mas ela foi, sozinha, iniciando um novo ciclo em sua vida marcado por um sangramento menstrual que parecia não ter fim. Foi inicialmente morar com uma tia que a levou a um centro procurando a cura para os desvarios de sua menstruação. Foi o seu primeiro contato com o terreiro. Sendo atendida por Exu Caveira, que acabou foi por provocando medo em Iracema, ela se dirigiu a um outro terreiro, persistindo na busca da cura de sua doença que impedia que ela tivesse filhos, que era o seu grande desejo. Além disso os médicos não conseguiam diagnosticar a causa da hemorragia menstrual que afligia Iracema. Nesse terreiro de Umbanda com Quimbanda ela foi atendida pelo Caboclo Seu Lírio Branco que disse a Iracema que ela só iria melhorar e engravidar se ela colocasse uma roupa e fosse fazer caridade. Assim ela fez. Passou a freqüentar o terreiro como cambone e desenvolvendo sua mediunidade incorporou a primeira entidade – a Pombagira Maria Padilha.
Na trajetória do amor, um espanhol apareceu, e diz Iracema que poderia ter sido feliz com ele, mas que o destino traçou outros caminhos que a levaram a conhecer o pai de seus filhos. Recorda ela que acabou indo morar com ele em Coelho da Rocha. A relação com o homem, mais uma vez, foi muito dura. Passou fome, era espancada e ameaçada de morte, caso o abandonasse. A partir de então, Iracema passou a trilhar os caminhos da religiosidade umbandista, e posteriormente, candomblecista, e através da força espiritual de Maria Padilha, vem praticando a caridade curando crianças, homens e mulheres de suas aflições físicas e espirituais. São muitas as histórias: livrar alguém da morte encomendada por alguém, através do envenenamento; restituir a força do caminhar numa perna prestes a ser amputada; libertar um outro das drogas; conseguir um emprego para os desfiliados do sistema, um amor para os despossuídos de afeição.

Outras Vozes

Diz James Hillman que:
Os relacionamentos oferecem containers para a loucura. Quanto mais profundos forem, mais poderão conter. Eles provêm local para o sacrifício e proteção contra o aspecto destrutivo do criativo. Quando esses canais são negligenciados, quando o instinto não pode ser moldado através de modificações psíquicas adequadas e, principalmente quando não há um opus continente para a criatividade, os arquétipos irrompem diretamente em cena”: vê-se então o impulso primordial destrutivo/criativo; o homem compelido, desesperado, desmembrado; o si-mesmo em seu processo psicótico. (HILLMAN, 1984:43)
O autor nos fala de uma criatividade que se diferencia da que está atualmente em voga na psicologia acadêmica, que registra um novo interesse dirigido para as “diferenças individuais”, para a educação para a “excelência”, para o cultivo de indivíduos criativos na luta pela sobrevivência. A partir do momento em que adquiriu o significado de “produtivo”, por volta de 1800, passou à categoria de novo ego do século XIX. Assim, diz o autor, a criatividade tende a transferir-se cada fez mais para o homem, de modo que a própria palavra se tornou um símbolo conceitual que sustenta as projeções de esperança, individualidade e sobrevivência. Mas para Hillman, analisar a criatividade através de modelos bidimensionais seria converter o mistério criativo num problema a ser solucionado. Submeter a criatividade a uma psicologia explicativa seria o mesmo que sacrificá-la através de um desmembramento ritual. Dessa forma, ele não a define, o que a limita e corta, mas a amplifica, o que a estende e a relaciona.
Criatividade, então, para Hillman (1984:33-35), seria a capacidade da psique de fazer alma. Alma, como metáfora da individuação do ser humano, como fulcro do destino pessoal. Seria a capacidade da psique em se concentrar nas forças míticas, arquetípicas, que são encenadas através dela. Quando Hillman se refere a relacionamento, também não se refere apenas às relações com o outro – família, amigos, companheiro. Segundo o autor os relacionamentos humanos podem ser uma condição indispensável, mas não deve ser confundido com o opus de fazer alma. Diz ele que a alma permanecerá estéril se ficar limitada ao círculo humano. O relacionamento, então, deverá incluir a relação com os deuses que habitam as profundezas do inconsciente, os quais guiam o ser humano na sua vocação para a auto-realização. Os relacionamentos fornecem containers para a loucura, disse Hillman. E na meninice de Iracema, nada faltava para desencadear um processo de desmembramento: mãe ausente, pai castrador, sociedade punitiva, figuras masculinas impotentes para realizar o rapto tão necessário às jovens filhas de Deméter. Além das vozes e presenças destrutivas desse mundo, ela também ouvia vozes e via pessoas do outro mundo. Pobreza, solidão, mortes e doenças, eram presenças constantes.
Mas continua Hillman dizendo que tais containers oferecem também proteção para o aspecto destrutivo do criativo. A admiração pela avó, seu amor, seu acolhimento, suas curas e visões, a luta pela sobrevivência, acabaram por criar um vaso uterino capaz de receber Iracema e dar sentido às suas visões. Os tios que carregavam uma cruz de fogo: cruz de sofrimento pela vida mal vivida; a menina de vestido de branco que acompanhava Iracema pelos seus passeios pelo mato: menina amiga, que conversava com ela, irmã, companheira que preenchia os momentos de Iracema nas suas andanças.
Diz, ainda, Hillman (1984: 88-94), que erotismo e criatividade estão estreitamente ligados. Erotismo no sentido hillmaniano de movimento em direção à alma, no fluxo desobstrutor do erótico, fálico em seus saltos repentinos, na relação que supera a distância, na penetração que tem por fim o engendramento. Instintivo, daimônico, Eros nasceu do Caos, e renova-se em ataques afetivos, ciúmes, fulminações. Ele prospera junto ao dragão. Eros aponta para as feridas de nossa personalidade, para seus aspectos não curados e revela à psique as feridas de sua inaptidão para o que é ordenado, oficializado. No entanto, para que seja capaz de criar, Eros precisa da Psique, da consciência, para conseguir a habilidade de lidar com os símbolos que atravessam ferozmente a fronteira que divide o inconsciente da consciência.
Como disse Hillman, não existe criatividade sem Eros. Iracema, desde de sua infância, carregava as feridas provocadas pelas flechas do filho de Afrodite. Pesava em sua alma o desejo de ir embora, de mudar, de dar outro rumo na vida. Desobediente, ela cuidava dos doentes e dava comida aos mais necessitados que ela, escondida do pai. Criativa, recebia as imagens que invadiam sua consciência e se relacionava com elas de forma construtiva. Iracema ao decidir ir embora da Paraíba, inicia um novo ciclo de aflição, salvação e transformação. Diz ela: “Eu fui uma pessoa muito intimidada, jogada sozinha no mundo, porque eu não tive apoio de ninguém, de ninguém mesmo. Fui pro santo inocente, inocente mesmo.” A força erótica presente, impulsionadora, a única capaz de fazer com que uma moça de quatorze anos se casasse para conseguir se emancipar, e assim poder viajar sem ter que pedir autorização dos pais. Iracema teve que lutar contra sua inocência na cidade grande, campo aberto para acolher também as fraquezas humanas. Sua inexperiência no mundo do trabalho, o assédio dos homens, sua necessidade de sobrevivência – ter o que comer, onde morar, o que vestir. Foi para o santo também inocente, diz ela. Não entendia nada de Candomblé, Umbanda. E foi alguém, que nada tem de inocência, que primeiro possuiu Iracema: a Pomba-gira Maria Padilha.
Iracema, no terreiro de Umbanda, foi surpreendida por uma imagem de uma mulher do passado, uma prostituta, fortalecida pelas experiências trágicas pelas quais passou. Mulher madura, bonita, guardiã das misturas de ervas, dos chás, dos despachos que curam, mas que também trazem a dor. Rainha da encruzilhada, tudo sabe, tudo vê. Senhora dos bons conselhos, que regenera e salva. Senhora que retorna a maldade para quem quis prejudicar um filho seu. Uma nova relação se estabelece. Maria Padilha diz a Iracema que sua vida deveria ser dedicada ao trabalho de fazer o bem para os outros, ajudar as pessoas necessitadas.
A entidade espiritual de Maria Padilha é compreendida aqui como um dos símbolos do arquétipo do Grande Feminino, no seu aspecto mais transformador. Enquanto o caráter elementar do Grande Feminino, denominado por Erich Neumann de a Grande Mãe, sempre tende à dissolução do ego e da consciência, no inconsciente, o outro aspecto do Grande Feminino, a anima, coloca a personalidade em movimento, faz com que ela se modifique, levando à transformação. (NEUMANN, 1974:42)
Iracema soube interpretar os símbolos enviados à sua consciência, e dessa forma não se sucumbiu a eles. Sua psique assimilou os conteúdos do inconsciente, contidos no símbolo. Foi capaz de transformar o caráter avassalador do símbolo Maria Padilha, em termos de rituais culturais. Iracema se prepara para receber Padilha: existe um dia definido para receber a entidade, um canto próprio para evocar o espírito, uma roupa apropriada, a bebida preferida de Padilha, o cigarro predileto. Existe, enfim, um ritual que delimita o espaço e o tempo para que a entidade possa possuir seu corpo. Maria Padilha não é mais um instinto, ela se transformou numa imagem sagrada. O símbolo foi nomeado, seu nome é Maria Padilha, e Iracema pode dialogar com ele.
Mas não foi sempre assim. Diz Iracema que Padilha descia e tomava seu corpo quase que constantemente, sem anunciar, sem os rituais apropriados para receber um espírito do outro mundo. O símbolo aqui estava carregado, ainda, de um furor poderoso, extremamente erótico, indeterminado, que domava a consciência de Iracema. Esta, sem força egóica suficiente para lidar com tal numinosidade simbólica. Foi através de um longo processo que as posições se inverteram. Para Padilha possuir o corpo de Iracema, precisa agora de sua autorização.
Essa dificuldade anterior de lidar com Maria Padilha foi também acompanhada de grandes tumultos em sua vida pessoal. Um casamento arruinado, uma separação, a perda dos filhos que foram morar com o pai. A perda de bens materiais, a falta de dinheiro, de um lugar para morar, era o retorno novamente de Iracema a um não-lugar. Era como se novamente tivesse que partir, mas não mais da Paraíba ou do Rio de Janeiro, mas agora de si mesma.
Aos poucos Iracema ajeita a vida e recebe de Maria Padilha um recado. Era para ela buscar seus filhos, morar com eles de novo. E assim ela fez, retomou a vida, agora junto com seus filhos. Mas no meio desse percurso, seu filho mais velho adquire uma doença grave. Desenganado pelos médicos, Iracema é possuída por Maria Padilha que toma as rédeas da situação. Diz Iracema: “Padilha me dizia o que fazer, era eu, era ela, catando as ervas, ela me dizendo qual eu deveria pegar, o que devia fazer, como deveria preparar os banhos, o remédio que iria curar meu filho”. O desespero pela perda definitiva do filho, por um curto tempo, quase fundiu as duas personagens. Era ela, era eu, disse Iracema. O filho foi salvo. Iracema também.

Foi à proteção de Maria Padilha que Iracema entregou seus filhos:
Padilha me dizia que meus filhos podiam ir aonde fosse que ela iria tomar conta e que nunca iria acontecer nada com eles. Realmente, ela tomou conta e deu conta, porque foi muita coisa que a gente passou.
Se por um lado Iracema se refere a Padilha “como um espírito iluminado”, “que dá mais do que recebe”, como sendo responsável por tudo de bom que ela conseguiu na vida, pelo cuidado que teve como seus filhos, a mulher do outro mundo assim também vê Iracema, seu cavalo que a conduz novamente a esse mundo aqui da terra. Assim Maria Padilha fala de Iracema:
Iracema é a muré da terra que eu tiro o chapéu pá ela. A mamureca é rica espiritualmente, a mamureca, ela lutou por muito povo, o que num foi poco, icutô? E ela num perdeu ainda a essência da vida, o dela tá viva, o dela tá querendo a meró.
(...)Ela é muito justa, ela é muito honesta em tudo aquilo que ela faz. A mamureca vem prá tera numa hora abençoada prá dá caminho a povo, pá dá luz e amô, pá segurá na mão.
Maria Padilha não teve filhos em suas vidas passadas, mas criou os de Iracema. Como Iracema, ama as pessoas, os pobres, os que sofrem, ama a natureza:
Eu num tive firo que eu pari, eu tive firo que eu criei. Esses aqui, são firo meu. Eu num paro, mas também não sô figuera. Porque a única Bombogira que num pariu foi a Figuera do Inferno. Ela num gota de criança, e quem num gota de criança não respeita Deus, num é assim? Eu nunca vou fazer mal a uma criança, eu nunca vou fazer mal a um veio, eu nunca vou matá um bicho, e nunca também vou assassinar um ladrão, porque até ele tem perdão, num é assim moça?
Como as relações amorosas de Iracema, as de Padilha também foram tumultuadas, acabando em tragédias. Conta Padilha que sempre foi mulher de muitos homens, mas só a um, deu seu amor:
Ó moça, eu fui muré de muito homo. Não fui muré de um homo só, mas de muito homo que eu gosto na tera e que eu respeito. Eu tenho sete exu, sete homo eu tenho. Eles trabáia pa eu, porque eles gota deu. Mas eu só gostei de um homo, de exu marabô. Na tempo de cigano (...) eu andava com o bando e casei com um cigano, com fogueira, quebrei a taça, fiz juramento, puxei a espada, fiz toda a marmotage, né é assim? Foi quando eu conheci exu marabô. Ele era fio de rei e potegia os pobe, e o pai dele judiava muito da mãe. Ele fancês. E a pai dele pendia a mãe dele assim nas pilastra e botava as muré pa fazer baco na frente dela. E a pai dele negava cumida para os pobe. Aí um dia ele matô o pai dele e por isso ele se tornô exu. Ele num foi purificado, como suncês fala, num foi pro céu, mas onde é o céu, pode ser aqui, num é assim? O céu pode ser suncê, num pode? Aí ele se tornou um exu, mas ele é juto, ele é um exu que trabáia pela justiça, mas ele num gota que faça maldade cum quem num merece. Aí eu gotei desse homo. Aí a cigano a me matô, a tampunhoca.
As histórias de Padilha a muito se assemelham às de Iracema. São memórias que falam de abandono, de injustiça, de pobreza, de desencontros. São vidas complementares. Mas é de Padilha que vem a força que sustenta Iracema. Uma Iracema já cansada de guerrear. Diz Iracema:
No fundo, na verdade acho que tudo isso, as pessoas me vêem com uma pessoa muito forte e que eu podia tudo, dá pra tu entender? É assim que eu sou vista. E incomoda. Tem horas que eu sou frágil, que eu sou criança que eu quero colo, que eu tenho os mesmos desejos, as mesmas vontades, dá pra tu entender? Mas fazer o quê, né? Não posso ser fraca. Eu até deixo transparecer, eu choro, grito, brigo, mas não adianta. Tenho que voltar para o meu mundo e lá vou eu.

Padilha sabe do cansaço de Iracema, conhece seu desejo de novamente ir embora em suas andanças pelo mundo, talvez como a própria Padilha, quando andava pelo mundo com um bando de ciganos:
Mas se a mamureca tiver bango hoje, a senhora pode ter certeza que ela abandona tudo e ela vai imbora pá um lugar bem longe, e ela num qué mais sabê do trabaio meu, e ela tem que trabaiá na tera, aí eu vai pendendo ela por acá, né? A mamureca não nasceu pá ser dominada por ninguém, ela nasceu pá ser livre, fica do lado dela quem qué, num é assim moça?
Diz Jung que o eu só conserva sua integridade e independência, se não se identificar com um dos opostos, mas conseguir manter o meio-termo entre eles, “se ele permanece consciente dos dois ao mesmo tempo”. (JUNG, 1971:156). Assim, parece que Iracema conseguiu esse feito, o de não se identificar egoicamente com os conteúdos arquetípicos, que vieram através do símbolo Maria Padilha, nem de negar a existência deles. Iracema tem sim, a consciência da existência de uma energia psíquica, a princípio estranha a ela, incontrolável, mas que aos poucos foi sendo diferenciada pelo ego, e que recebeu o nome de Padilha. Trata-se aqui, segundo Carlos Byngton, de uma elaboração simbólica.
Ao entrar na consciência, o símbolo pode trazer algo novo e produzir uma desarrumação na ordem vigente. Por isso, o novo, apesar de necessário e criativo, sempre incomoda, e muitas vezes é temido, causando ansiedade. Aos poucos, segue-se a elaboração do símbolo. A elaboração consiste na separação das polaridades dos símbolos, nomeando-as, se desconhecidas, ou reconhecendo-as, se já eram conhecidas. A elaboração simbólica diz respeito, portanto, à discriminação dos símbolos na consciência, à reassociação das polaridades antes separadas. (BYINGTON, 1987:22-23) Esse é um processo constante e interminável. Assim, a estruturação da consciência e da identidade não cessa nunca, o que torna natural a mudança, a criatividade, a dúvida, a insegurança e ansiedade.
Iracema, pois, foi capaz de, criativamente, transformar as vozes que ouvia, as visões, a possessão, surgidas do obscuro inconsciente, mas também com raízes na sua memória social, em cura para suas aflições. Sua aflição e sua cura dependeram, pois, do seu engajamento em sua própria história - de abandono, de pobreza, de solidão e de desamparo, e na maneira como relacionou com o símbolo de Maria Padilha. Iracema reatualizou a sua história, através da história de Padilha, e assim conseguiu dar sentido e transcender suas experiências de dor.
Conclusão
Sou ela, ou serei eu?
Talvez por tão antiga,
seja ela o meu rosto, e seja máscara
esse outro perfil que olha para dentro.
Mansa por fora: dentro uma floresta escura,
poço de paixão, abismo e arremesso.


Lya Luft
Jung irá falar do homo religiosus, (JUNG, 1976: 10-11) que independentemente de qualquer credo religioso, ou do que as confissões religiosas fizeram da questão religiosa, considera e observa cuidadosamente certos fatores que agem sobre ele e seu estado geral: espíritos, demônios, deuses, leis, idéias, ideais. Utilizando da idéia de numinoso de Rudholf Otto, diz Jung que a experiência com um símbolo religioso pode se mostrar poderosa, perigosa ou mesmo útil, merecendo respeitosa consideração, ou mesmo se constituir de uma grandeza e uma beleza tal que passe a ser adorada e amada. O termo religião, então, será designado por Jung como “a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso” (1976:10), ou seja, a religião teria como função ligar a consciência a fatores inconscientes importantes.

No entanto, a experiência com uma fonte desconhecida não é simples de ser compreendida nem fácil de ser suportada. Ela tanto poderá gerar o fascínio e a obsessão, como uma violenta repulsa e medo, causando a repressão daqueles conteúdos. Mas diz Jung que tais coisas numinosas,
(...) são partes importantes de nossa estrutura mental e não podem ser erradicadas sem uma grande perda, pois participam como fatores vitais na construção da sociedade humana, e isto desde tempos imemoriais. Quando são reprimidas ou desprezadas, sua energia específica desaparece no inconsciente, com conseqüências imprevisíveis. (JUNG, 1976:253-254).
A perda ou destruição do numinoso leva à perda dos valores espirituais em proporções perigosas. A mentalidade científica muito contribuiu para o isolamento do ser humano dos fenômenos instintivos e inexplicáveis que sustentam a atividade psíquica consciente. Perdeu-se a conexão com a natureza e a participação emocional com os acontecimentos naturais. Observa Jung que
“o trovão já não é a voz de Deus nem o raio seu projétil vingador. (...) Também as coisas já não falam conosco, nem nós com elas, como as pedras, plantas, fontes e animais. Nossa comunicação direta com a natureza desapareceu no inconsciente, junto com a fantástica energia emocional a ela ligada.” (JUNG, 1976:255)
Essa perda é compensada pelos símbolos que aparecem nos sonhos, na cultura, nas fantasias, trazendo novamente à tona a natureza primitiva com seus instintos e sua maneira própria de pensar, mas expressos numa linguagem na maioria das vezes incompreensíveis para a mente racional da modernidade. Tal mentalidade sempre se imbuiu de um grande esforço para desinfetar a humanidade das chamadas “supertisções”, da crença nos duendes, bruxas e feiticeiras. Mas questiona Jung que, se a superfície do mundo está purificada dos componentes irracionais, é preciso se perguntar “se o mundo realmente humano – e não nossa ficção desejosa dele – também está livre de todo primitivismo.” (JUNG, 1976: 256).
Os símbolos, então, teriam como função trazer de volta à consciência as experiências originais do ser humano, através de uma auto-reflexão crítica. Tal reflexividade levará em conta que o “símbolo não se confronta só com o símbolo em si mas com a totalidade de um indivíduo que gera símbolos” (JUNG, 1976:251), ou seja, o símbolo é algo vivo, ele pertence à economia psíquica do indivíduo e só pode ser explicado da forma que este indivíduo indicar. A existência de fenômenos que estão fora da compreensão humana faz com que a psique busque incessantemente por significados que dêem sentido à sua existência, tornando-a dessa forma inerentemente religiosa, como diz Jung. Os símbolos religiosos possuiriam, então, o papel de representar os conceitos que não podem ser definidos ou compreendidos integralmente. É por isto que as religiões empregam uma linguagem simbólica, e se exprimem através de imagens. É assim que a história de Iracema pôde ser compreendida. Ela foi capaz de conduzir a numinosidade e o fascínio do símbolo religioso de Maria Padilha, um dos aspectos do arquétipo do Grande Feminino, a uma profunda expressão dos ritmos e movimentos da sua vida psíquica e espiritual, permitindo que ela conhecesse esses ritmos e por eles fosse transformada. Essa foi a trajetória criativa de sua psique. Iracema se relacionou com o símbolo espiritual de forma construtiva. Não se sucumbiu nem se identificou com ele. Ela, sim, manteve uma relação com ele. Iracema viu em Padilha sofrida, sozinha, constantemente cortada do mundo pelas mãos dos homens, assim como ela, sua riqueza e luz. Riqueza e luz na capacidade de perdoar de Padilha – “Eu sou uma bombugira que perdoa as pessoa na tera”, sua liberdade e coragem para enfrentar o mundo dos homens – “Eu nunca deixei homo trepá em cima deu moça, eu trepava em cima de homo”, na sua fidelidade à justiça – “Aí ele se tornou um exu, mas ele é juto, ele é um exu que trabáia pela justiça, ele num gota que faça maldade cum quem num merece. Aí eu gotei desse homo” .
Uma relação que propiciou a Iracema sentir amor por si mesma e estar sempre disposta a renovar sua vida amorosa. Fala Iracema: “Só amei um homem na minha vida. Mentira. A gente ama vários homens em várias situações. Mas o amor mais bonito na face da terra, é quando você ama a si próprio”. Iracema aprendeu através de Padilha, a transitar pelos aspectos do arquétipo do Grande Feminino, em seu caráter elementar e acolhedor da Grande Mãe, e em seu aspecto transformador, que arrebata as filhas e filhos daquela que os quer ter para sempre no útero materno.

Iracema que entregou seus filhos para Padilha cuidar, talvez por compreender que ela sozinha não seria capaz da empreendedora e difícil tarefa da maternidade. Iracema que sobreviveu ao poder patriarcal que tentou domesticá-la. Iracema dos amores que não deram certo, seguindo a mesma sina de sua entidade:
Eu acho que esse negócio de mulher submissa, mulher abaixar a cabeça para o homem, mulher apanhar de homem, como eu apanhei mesmo no meu primeiro casamento, com o pai das minhas filhas, é a maior sacanagem. Tem mais é que dar uma surra nele se ele vier pra cima de você, sentar-lhe o pau, mostrar que você também é mais você e por aí.
E ainda:
Existe o encanto, existe a paixão, existe afinidade, mas aquele amor de Romeu e Julieta, joga as tranças Rapunzel, de mulher se matar por causa de homem, acho isto pura invenção. Você se mata por causa de um filho, por causa de um irmão, por causa de um amigo, por causa de uma pessoa necessitada, por um que tá morrendo ali no chão, pra mim amor é um todo. Eu tô com um homem aí, você viu entrar? Ele já foi embora dez vezes e voltou. (...) Porque no fundo, no fundo é chato a gente viver só, mas às vezes a companhia também é tão pesada, que se torna um peso maior, e a tua liberdade vai pra onde? Namorei muito, transei muito. Mas hoje não tenho essa necessidade. Se amanhã ele não tiver aqui, eu não vou morrer porque eu não tenho um homem. Existem tantas outras coisas que podem preencher tua vida. (...) Padilha deixa eu ficar com homem bobo, ela diz que eu não dou pra ficar com homem esperto. O homem da minha vida não apareceu, e ela mesmo fala isso.
Iracema, apesar de uma trajetória que a todo tempo tentou separá-la de si mesmo, dos filhos, da família e da vida social oficial, com as mesmas mãos habilidosas que colhe as ervas e prepara os banhos e chás milagrosos, foi capaz de uma reflexão séria e compreensiva a respeito do amor, das pessoas que lhe dão por codinome “a feiticeira”. Vamos ouvi-la:
O que geralmente a gente joga em cima do homem é a nossa carência, quando não deveria ser isso. A gente devia jogar o quê? Aquela do dividir, do participar, do somar, do ombro amigo, do colo que a gente precisa, entendeu?
E ainda,
Aqui fora me chamam a bruxa, é que as pessoas têm aquele medo. No entanto, eu não me sinto uma bruxa, eu não me acho bruxa, entendeu?
Na minha porta botaram uma colher de pau queimada e uma pedras enroladas com ouro. Eu não vou queimar meu ouro, né? Fui lá tirei as pedras, as correntes de ouro joguei na encruzilhada. Então esse povo tem a maior curiosidade, de repente é de conhecer, né? Aqui é chamada a casa das mulheres bonitas, dizem que aqui só vem mulher bonita, e eu sou a bruxa (risos).
O relacionamento de Iracema com Padilha foi o containers que curou e redimiu Iracema. Iracema dialogou com o símbolo, e essa dialética estabeleceu as fronteiras entre as obscuras imagens do inconsciente coletivo e a consciência. Marcou dia e hora para receber Padilha. Construiu um espaço protegido, o terreiro, para que pudesse receber o símbolo da entidade, carregado de Eros e de sua força numinosa. Psique, como consciência, unida à reflexão, liga e cura, diz Hillman. (HILLMAN, 1984:82). Faz suportar a trajetória nesse mundo. Por mais paradoxal que possa ser, parece que é Padilha que segura Iracema em suas tarefas cotidianas, que a prende a seus filhos, que a impede de deixar tudo e novamente ir embora: “(...) aí eu vai pendendo ela por acá, né?” Iracema não precisou morrer para suportar a cruz de fogo que via seus tios carregarem nos ombros, em suas visões. O amor de Padilha, por ela, Iracema, cicatrizou suas feridas, e a tem colocada de prontidão para viver o que a vida tem lhe oferecido.

Tudo nessa tera se cura cum amô.
Tudo, tudo, tudo.
A pió duença que suncês pensá
na face da tera, ela se cura
cum um remédio que se chama amô.
Maria Padilha


Sandra Defante

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