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quarta-feira, 29 de abril de 2009

KIMBANDA e QUIMBANDA


KIMBANDA e QUIMBANDA
POR EDMUNDO PELLIZARI (RAS ADEAGBO)

Kimbanda significa algo como “cu­ran­deiro” em kimbundu, um idioma bantu falado em Angola.
O kim­banda é uma espécie de xamã africano.
O ofício do kimbanda é chamado de “umban­da”... Todos já ouvimos essa palavra por aqui.

Quimbanda é um culto afro-brasileiro com forte influência bantu e muito influ­enciado pela magia negra européia.

Kimbanda e Quim­banda se confun­dem, mas são cultos distintos e com objetivos dife­rentes.

O kimbandeiro é um membro ativo de sua comunidade,
um doutor dos po­bres e intérprete dos espíritos da Natureza.
Ético, ele sempre trabalha para o bem, a paz e a har­monia.

O quimbandeiro é um feiticeiro.
Nor­mal­mente vive afastado, não se envolve social­mente.
Na África, o kimbandeiro faz a ponte en­tre os Makungu (ancestrais divini­zados),
os Minkizes (espíritos sagrados da Natureza) e os seres humanos.

Ele entra em transe profundo, incorpora os seres invisíveis que consultam os necessitados e os aconselham na resolução dos proble­mas. Os espíritos no corpo do kimbanda falam, fumam e bebem.

Como autêntico xamã, ele sabe que a mata é um ser vivo que respira, come e sen­te.
Ela é densamente habitada por diversos tipos de entidades, que trans­mitem seu conhecimento aos sacerdotes eleitos.
Alguns destes seres se parecem a “duendes”.
Eles tem uma perna só, um olhos só ou falta algum braço.
Moram dentro da mata e podem cruzar o caminho de algum caçador.
Um Ponto Cantado para os exus na Umbanda, diz:

“Eu fui no mato,
oh ganga!
Cortar cipó,
oh ganga!
Eu vi um bicho,
oh ganga!
De um olho só,
oh ganga!”

Ganga vem de Nganga, um dos no­mes pelo qual o kim­banda é conhecido.

Nosso querido Saci Pererê é um de­les.

Ele usa o filá (gor­ro) vermelho dos kim­­bandas, o ca­chim­bo dos pretos velhos e o tabaco dos caboclos!

O quimbandeiro centra seu trabalho na figura de Exu, que é um Orixá yoruba e não um Nkizi bantu.

A entidade que se assemelha a Exu entre os bantu é chamada de
Aluvaiá, Nkuvu-Unana, Jini, Chiruwi, Mangabagabana e Kitunusi dependendo do dialeto e da região.

Aluvaiá pode ser “homem” ou “mu­lher” e sua energia permeia tudo e todas as coisas.
Ele se adapta muito bem à noção umbandista de exu (entidade masculina) e pomba gira (entidade masculina).

O quimbandeiro também invoca e incorpora as entidades associadas ao culto do magnífico Orixá Exu, os exus e pombas giras.
Pode haver sincretismo com nomes como Lúcifer, Asmodeus, Behemoth, Bel­zebu e Astaroth da Cultura Européia.

A visão das entidades também pode mudar... O kimbandeiro invoca as almas dos antigos
Tatas (pais espirituais ou sa­cerdotes curandeiros) e Yayas (mães espi­rituais ou sacerdotisas curandeiras).

Estas almas transcenderam o limite da mate­rialidade e da ignorância.
Elas possuem bondade, conhecimento e luminosidade.
Algumas não precisam mais encarnar, pois, já evoluíram o suficiente neste mundo.

O quimbandeiro invoca almas de entidades que em vida foram feiticeiros, malandros, mercadores, homens ou mu­lheres comuns, etc...
Na África o sangue é um elemento sacrificial.
O kimbandeiro oferece um ani­mal a uma entidade, prepara a carne e entrega a primeira porção ao espírito.
O resto do animal, que se tornou agora ali­mento, é compartilhado com a comuni­dade se isto acontece em data festiva.

O quimbandeiro, não está interessado em “sacrificar” (tornar sagrado), ele está preocupado com os poderes mágicos do sangue, vísceras e couro do animal. Por­tanto, teologicamente falando, ele não sacrifica.

As imagens utilizadas no culto do kim­bandeiro são feitas de pedra, madeira e barro.
Os artesãos procuram modelar as entidades da Natureza de forma natural e simples.
A imagem é consagrada cerimo­nial­mente e uma porção do espírito da entidade passa a habitar a efígie.

Na Quimbanda, na maioria das vezes, são utilizadas imagens de gesso que re­presentam os espíritos aliados.
Comu­mente estas imagens tem aspecto aver­melhado, podendo ter chifres ou não.

O kimbandeiro é um agente social.
Ele depende da comunidade e a comu­nidade depende dele.
Quando aceita um pagamento para seu trabalho, ele retira do mesmo a sua sustentabilidade.
Todo mundo sabe e pactua com isso.
Não existe abuso.
Trocas de mercadorias e favores podem substituir o dinheiro como paga­mento.
As pessoas empobrecidas são aten­didas sem nada precisar dar em troca.

As vestes do xamã bantu são normais e naturais.
Quando está trabalhando usa filá, guias de sementes, cinturão com amuletos e roupas sóbrias.
Três são os pilares do kimbandeiro: amor, honra e caridade.

O universo da Kimbanda é composto por tês mundos que se interpenetram:
o mundo celeste onde moram os espíritos celestiais e originais (alguns Minkizis e ancestrais divinizados),
o mundo natural habitado pelos homens e pelos espíritos da natureza (elementais)
e o mundo sub­terrâneo da morte e dos ancestrais.

O médium na Kimbanda é um canal entre os espíritos e os que precisam dos espíritos.
Ele é um instrumento mágico, um servidor da humanidade que pratica um transe profundo,
pois, somente ador­mecendo o ego o divino pode fluir.

Os espíritos utilizam o médium com gentileza e cuidado, sem esgotar suas reservas de energia psíquica.

A Umbanda, certamente, bebeu das águas tradicionais da Kimbanda.

Os negros bantus trouxeram sua herança espiritual, legítima, luminosa, ecológica e antiqüís­sima.
Oramos para que as antigas almas dos Tatas e Yayas nos ajudem a separar o trigo do joio.

Nzambi primeiro!

Nsala Malekun!

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