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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Dona Rosa Caveira


Uma Pomba Gira nos Himalaias

Por Edmundo Pellizari

Dona Rosa Caveira é um mis­tério só.
Pomba gira pouco co­nhe­cida, tem reputação de maravilhosa curandeira e as­pecto inquietante.
Nas imagens popu­lares, ironicamente difí­ce­is de encontrar no Brasil, ela exibe um corpo meio esquelé­tico e meio humano coberto com capa e capucho.

Nos meios tradicionais é dito que ela é a “esposa” de Seu João Caveira, exu da “Velha Guar­da” do cemitério e Chefe da Linha dos Caveiras, um grupo de ser­vi­­dores fiéis e muito pres­tativos.

Em conversa ao pé do con­gá, com alguns irmãos de fé que também circulam pelos caminhos de algumas reli­giões de origem bantu (Kim­banda, Cangerê, Cabula), ou­vi que Do­na Rosa Caveira é protago­nis­ta de inú­meras lendas.

Uma delas conta que Rosa nasceu no Oriente.

Sétima filha de uma simples família do campo, desde cedo aprendeu com seus pais as artes da cura, pois eles eram afamados xamãs. Sua fa­lecida avó foi sua primeira guia espiritual.
Em sonhos, a querida al­ma da ancestral instruia e aconselhava a neta.
Rosa era uma menina privile­giada.
Aos dezenove anos ela conheceu um xamã mui­to mais velho.
Eles se apaixonaram e casaram.
Ela então começou um perío­do muito intenso de atendi­mento espiritual aos cidadãos de sua vila e arredores.
Sua vi­da trans­correu cheia de méri­tos e bênçãos.
Rosa morreria depois de seu marido, sa­bo­re­an­do o prazer de uma exis­tência de­dicada os mais necessitados.
Outra lenda nos conta o se­gre­do de seu nome...
Ao redor da ca­sinha onde sua família morava existia um roseiral selvagem.
No final da gra­videz, sua mãe não teve tempo de pedir ajuda à parteira local e a menina nasceu ali mesmo.

Daí o nome: Rosa.

Por que caveira ?

Em certas regiões do Oriente, so­bretudo na Índia, Tibet e Butão, alguns xamãs e yogues utiizam a caveira hu­mana como um cálice ritual.
A ca­veira, assim utilizada, não está relacio­nada com magia negra ou qualquer arte malévola.

No Budismo Tibetano os Lamas utili­zam uma caveira como cálice.

Também fazem um pequeno tambor com duas metades de caveira...
Na Índia ele é chamado de Damaru e a caveira de Kapala.

Quando conheci a lenda de Rosa Caveira, imediatamente percebi a co­nexão com as tradições yogues e tibe­tanas.
Na minha imaginação eu “vi” a gran­de mestra sentada numa alta mon­tanha, segurando uma caveira e em profundo estado de meditação.

Seria Rosa Caveira tibetana?

Pode ser que a lenda tenha se oci­dentalizado e a planta original, que poderia ser o lótus, tenha se trans­for­mado em rosa.
Neste caso seu nome seria Pema em tibetano. Em sânscrito, seu nome espiritual seria Kapa­la­padma (Lótus Caveira).
Na tradição budista e mágica do Tibet, Mongólia e arredores, existem mui­tas histórias e lendas com as mes­mas características das aqui men­cio­nadas.

O fato é que como Pomba Gira bra­sileira, na gira do dia-a-dia dos terrei­ros, Rosa Caveira é um pouco dife­rente de suas irmãs.
Ela não se firmou como “mu­lher da vida” ou er­ran­te marginal.
Mas se perpetuou como curandeira poderosa e ponte entre os diversos reinos do astral.

Uma outra curiosidade cir­cunda esta Pomba Gira. Rosa Ca­veira trabalha e vi­bra no cemitério...
Em algu­mas tradições orientais, as mes­­mas mencionadas acima, certo grupo de adeptos utiliza o cemitério para tra­balhos espirituais de cura e transfor­mação. Eles são cha­ma­dos de Kapa­likas ou portadores da caveira!
As mu­lhe­res do grupo, além da caveira transportam um tridente.

Certa vez eu estava caminhando com um amigo indiano pelas ruas do centro de São Paulo.
De repente, dian­te de uma loja de artigos religiosos, ele literalmente ficou paralisado!
Uma grande e vermelha estátua de Pomba Gira estava diante de nós.
Nua, majestosa, segurando um tridente e com uma caveira nos pés.

Shivaji, meu amigo indiano, se cur­­vou aos pés da imagem e disse:
“Trishula Kapala Ma! O que você faz aqui?”

Trishula Kapala Ma é a Mãe do Tri­dente e da Caveira,
uma re­pre­sen­tação do femi­nino sagra­do que po­de ron­dar os lugares de cremação.

Ela des­­trói os fantasmas ma­­lignos e os demô­nios, come as ilusões hu­ma­nas e resgata as almas das mãos dos seres das tre­vas.
Seu aspecto pode ser “terrí­vel”, mas a luz e a bonda­de emana de seu cora­ção.

Atrás do aspecto funesto de Rosa Caveira com certeza brilha a mesma luz.
Nela se encontram o Oriente e o Oci­dente, o vermelho e o branco, a vida e a morte.

Espero ter a humildade de Shivaji e também sempre me curvar diante do sagrado feminino.
Terrível ou bondoso, que importa?
Contatos com Edmundo Pellizari: ilhasanta@hotmail.com

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